Fora de foco
Nem sei que vos diga, tão mau que isto foi. E, sinceramente, nem foi tanto a Helena negra, que é um óbvio disparate, os barcos Vikings e a cenografia completamente ao lado, que têm absolutamente ZERO a ver com as praias de água azul cristalina do mar Egeu, eh pá, é como vos digo, nem foi isto que realmente me deixou estarrecido, o problema é que o grande épico de Christopher Nolan, com um orçamento de cerca de 300 milhões de dólares, filmado integralmente em IMAX têm um claro e indisfarçável problema de follow-focus! A imagem é baça, desbotada, em tons pastel e com falta de textura, e sobretudo notou-se que tecnicamente é um projecto absolutamente falhado e eu que sigo o Nolan desde o seu começo com ‘Memento’ há umas décadas, acho que sei de onde isto vem. Ser contra o uso de CGI é perigoso e pouco inteligente, porque a verdadeira questão foi sempre, não ser ‘contra’ o uso de CGI, mas sim ser contra o uso excessivo de CGI; os meus realizadores preferidos usam CGI quando tem de ser, para compor um plano ou para preencher uma cena e ajudar a contar a história, Peter Jackson usou e abusou do CGI no senhor dos aneis e ninguém se queixou - os efeitos por computador acrescentavam à história, tinham nexo e um propósito claro, e por isso se tornavam intrínsecos a própria linguagem. A cruzada de Nolan contra o CGI teve o efeito secundário de ‘descalar’ o seu cinema, ou seja, tornar os seus filmes circunscritos e vazios na cenografia - o melhor exemplo são os planos aéreos das praias durante ‘Dunkirk’, que é qualquer coisa de embaraçoso, praias com meia dúzia de gatos, em grave contraste com as imagens da época com milhares e milhares de soldados amontoando-se na rebentação - e se não usar CGI não serve a história, então está errado! E aqui em Odisseia tudo isto teve ainda um efeito secundário mais nefasto para Nolan: a opção pelo IMAX e as limitações gritantes na cenografia colocaram desafios técnicos insuperáveis para Nolan e o seu director de fotografia, provocando a adopção de lentes de grande abertura, 75, 80 ou mesmo 100mm na tentativa de fechar os planos em torno das personagens e disfarçar os cenários vazios de gente, o problema é que lentes de grande abertura em conjunção com o sensor gigante das câmeras IMAX provocam uma profundidade de campo tão pequena que o foco manual se torna quase impossível. O rosto das personagens está quase sempre fora de foco e a imagem no geral surge baça, com falta de textura. ‘Odisseia’ é por isso, acima de tudo, um testamento às limitações da tecnologia nas câmaras de ultra formato, é um filme mau, porque é feio, escuro, desfocado, e acredito que apenas o Nolan poderia apresentar uma cagada desta magnitude e alguns ainda lhe chamarem um excelente filme. Além disto está mal escrito, com diálogos monocórdicos ditos por actores a fazer o X e nada mais, num filme que nada tem a ver com a Odisseia de Homero, falha no tema e na forma. Meu rico dinheirinho.