Pompeia
Era mais ou menos meio-dia, segundo o historiador romano Plínio Cecílio, que observou tudo a partir da baía de Nápoles, quando uma coluna de fumo negro se ergueu do Vesúvio, da qual nasceram braços alaranjados, fustigados por relâmpagos, estendendo-se pelo céu.
Em Pompeia, a vida corria ainda assim normalmente. Não era a primeira vez que o Vesúvio despertava por instantes e a terra tremia; as lojas estavam abertas, o pão era cozido junto das ruas apinhadas de gente, e as crianças brincavam nos átrios e junto dos animais, perto do centro da cidade. Não havia rádio, não havia reportagens na televisão a aconselhar as pessoas a evacuarem de imediato.
Por fim, já perto do anoitecer, o manto negro de cinza cobriu o céu por completo e começou a chover uma cinza pegajosa sobre os edifícios. O ar tornou-se pesado e começou a ser difícil respirar. Alguns sábios mais instruídos juntaram amigos e familiares junto da avenida principal e instaram, aos gritos, os habitantes a descerem a colina na direção dos soldados junto da baía, que já reuniam botes e barcos para levarem quem pudessem para Nápoles ou Vico.
A cinza sulfurosa misturava-se com a água, formando uma espécie de ácido corrosivo que envenenava as fontes e os poços. A nuvem espessa de cinza aumentou a pressão atmosférica, fazendo os tímpanos rebentar e tornando ainda mais difícil respirar. Algumas pessoas caíam aqui e ali nas ruas e nos pátios; lentamente, o pânico começou a instalar-se.
A passo rápido ou a correr, famílias inteiras juntavam pertences em sacos de pano e concentravam-se na praça. Em fila indiana, começaram a descer pelas portas da cidade, ladeadas por soldados vindos do sopé da montanha.
Por volta das cinco da manhã, perto do nascer do sol, chegou por fim o último ato do fim de Pompeia: do lado do cone do Vesúvio, irrompeu montanha abaixo uma onda devastadora de matéria piroclástica, uma nuvem de ar quente, lava, rocha e cinza incandescente descendo pela encosta a uma velocidade impossível de escapar.
Quem ainda permanecia em casa, na parte norte da cidade, sucumbiu primeiro ao impacto da nuvem piroclástica; uma morte rápida, fossilizados em segundos pelo choque térmico. São deles as figuras fantasmagóricas e profundamente comoventes que ainda hoje se podem ver no museu de Pompeia: mães cobrindo os filhos com o corpo, crianças junto dos seus animais, homens estendendo o braço na direção de alguém, de uma janela ou de uma porta, rosto inexpressivo, boca aberta, os seus últimos momentos eternizados para sempre numa alegoria grotesca.
Menos sorte tiveram os milhares que se amontoavam pelas ruas e junto das portas a sul: foram cozidos vivos e vaporizados lentamente pela matéria incandescente. Podemos apenas imaginar os gritos, o terror, a aflição; famílias inteiras, carne a arder, cabelos em chamas. Estima-se que entre dez a doze mil pessoas possam ter morrido assim na zona sul da cidade. Deles nada restou senão cinzas espalhadas pelo solo enegrecido de Pompeia.
Os soldados que desciam as colinas conseguiram, ainda assim, salvar milhares de pessoas nos barcos; sobreviventes que, da baía de Nápoles, contemplaram durante horas o horror que se vivia lá em cima — amigos, vizinhos, família — morrendo num inferno indescritível, na outrora bela e florescente Pompeia.
