André Ventura declarou vitória antes mesmo da votação, numa quinta-feira de Junho em que o hemiciclo ainda cheirava a greve geral e a tinta fresca de cartazes que pediam o chumbo, e este pequeno detalhe — este gesto de quem celebra uma conquista que ainda não aconteceu mas já sabe que vai acontecer — é talvez o mais revelador de tudo o que há para revelar sobre o estado da política portuguesa e sobre a natureza deste partido que se diz dos trabalhadores, da nação, do povo, mas que na prática não é senão o instrumento mais dócil e mais útil de uma agenda que os próprios votantes do Chega deveriam ter razões para detestar. Há semanas que o mesmo André Ventura chamava a este pacote laboral um "bar aberto de despedimentos", palavras suas, palavras escolhidas com o cuidado típico de quem calibra a indignação para a câmara e para o scroll das redes sociais, e o deputado socialista não desperdiçou a ironia: se isto é um bar aberto, disse, o melhor cliente tem sido o Chega — e tinha razão, a ironia era perfeita.
O que este pacote laboral consagra, de forma crua e cruel, é uma agenda de desmantelamento sistemático das protecções que o 25 de Abril inscreveu na vida dos que trabalham e que foram compradas com décadas de luta, de greve, do suor e das gargantas roucas de gente que sonhou com um país em que o trabalho tivesse dignidade: promove a precariedade dos jovens não como fase transitória mas potencialmente como condição permanente, como destino selado à entrada do mercado de trabalho; permite despedimentos em massa através da agilização do outsourcing sem o antigo prazo de um ano que pelo menos obrigava a empresa a fingir que precisava daquele trabalhador antes de o substituir por um contrato mais barato e mais descartável; permite despedir sem sequer garantir ao trabalhador o direito de se defender, suprimindo o que era uma salvaguarda mínima de humanidade processual; e ataca as mulheres no período de amamentação, que é já de si uma das situações de maior vulnerabilidade laboral, como se a maternidade fosse um problema de gestão de recursos a resolver e não uma condição humana que uma sociedade decente protege sem hesitação, sem negociação, sem cedências ao mercado. É o maior ataque aos direitos de quem trabalha desde o 25 de Abril — e que o digam os que foram à greve geral, os que desceram à rua antes da votação, os que percebem instintivamente o que estava em causa mesmo sem terem lido o diploma.
Mas o que torna este momento particularmente sombrio não é apenas o conteúdo do pacote laboral, que por si só já seria suficiente para uma indignação duradoura, é o espectáculo patético e revelador do Chega a fazer as suas cambalhotas de ginasta amador no picadeiro parlamentar, invertendo posições com a desenvoltura de quem nunca teve nenhuma posição verdadeiramente sua, apenas poses, apenas conveniências, apenas o cálculo frio de quem sabe que os seus eleitores têm memória curta e afecto incondicional, movidos pelo medo e por pensamentos que no fundo têm vergonha de ter. A norma do outsourcing que vai ficar consagrada neste diploma é precisamente a que mais colide com a retórica nacionalista do partido — porque o outsourcing é a globalização aplicada ao trabalho, é a deslocalização da mão-de-obra dentro das próprias fronteiras, é o instrumento preferido de quem quer cortar salários e direitos sem o custo político de fechar fábricas —, e ainda assim o Chega vai votar a favor, vai viabilizar, vai reivindicar como vitória a reposição dos 25 dias de férias como se uma vitamina compensasse o veneno que se bebe com ela no mesmo copo.
O Chega não é um partido de trabalhadores, nunca foi, nunca quis ser: é um partido de medos, de ressentimentos cuidadosamente alimentados, de vergonhas que não se dizem em voz alta mas que se depositam num voto que promete castigo ao diferente e grandeza a quem se sente diminuído sem perceber bem porquê nem por quem. Os seus votantes não votaram pela precariedade dos seus filhos, não votaram por empresas que possam despedir sem ouvir o trabalhador, não votaram contra as mulheres que amamentam — votaram contra aquilo que lhes foi descrito como o inimigo, e o inimigo mudava de cara consoante a semana, era o imigrante, era a corrupção, era a "gerigonça", era o "sistema", era tudo menos o capital e o patronato que este pacote laboral serve com uma fidelidade que nenhum partido da esquerda jamais conseguiu mobilizar com tanta eficácia para qualquer outra causa. Os que votaram no PSD com a esperança de um governo sério, estável, adulto, não votaram por isto: não votaram por um diploma que ressuscita a troika sem o pudor de a nomear, que desmonta em poucas páginas o que gerações construíram, e que chega ao parlamento pela mão de um acordo que não é acordo porque o Luís Montenegro não quer dizer a palavra. E os que votaram no PSD com a esperança de um "Não é Não" que fosse de facto uma recusa, uma linha vermelha, uma diferença real, ficam agora com um "Nim" que é a tradução mais honesta do que o partido sempre foi: nem sim nem não, nem nada, apenas o gesto calculado de quem serve quem o financia e protege e fica com a mão estendida à espera do próximo favor. Foram enganados os dois. E o país que sai disto é um país em que trabalhar vai custar mais, em que ser jovem vai custar mais, em que ser mulher vai custar mais. A reforma laboral vai passar, mas nós todos vamos ficar por cá.