Avatares sem alma
No futuro, os humanos dominam as viagens interplanetárias mas são derrotados por seres azuis humanoides munidos com arcos e flechas montados em lagartos com asas. É este o nível de imbecilidade que é necessário eu engolir para de alguma forma dar a toda a saga de 'Avatar', pelo menos, o benefício da dúvida; mas acresce a isto uma história sem densidade, estupidificada para uma audiência com o cérebro desligado, onde os maus são muito, muito maus e os bons são muito mas muito bonzinhos, e mesmo que Cameron quisesse fazer uma história infantil, que não quis, seria ainda duplamente mau, já que lhe faltam as cambiantes da moral e da justiça por exemplo, que nunca estão ausentes das grandes histórias juvenis.
Personagens sem motivações, diálogos parvos repletos de chavões e frases feitas, interpretações plastificadas sem emoção ou chama (mesmo tendo em linha de conta e motion capture), numa trama onde não há risco ou conflito, onde os bons se safam sem que ninguém morra e os maus são obliterados sem dó nem piedade; tudo isto embrulhado num cgi vistoso que não disfarça contudo a sua vacuidade intrínseca. Um disparate de quase 3 h.
Junta-te a nós!
Por entre estepes, cidades abandonadas, ruínas, fábricas fantasmagóricas, florestas e desertos; correndo pela vegetação baixa, escondidos nas sombras, evitando as janelas, fechando sempre as portas atrás de nós e tendo sempre um plano de fuga; somos o fim e o princípio, a esperança do derradeiro amanhecer da humanidade. Junta-te a nós! #arcraiders
Pinóquio reinventado
A humanização dos monstros segundo Guillermo del Toro, ou mais um capítulo começado há quase uma década com "The shape of the Water", nesta reinterpretação de "Pinocchio" , uma nova iteração da história da criatura buscando o seu criador para com isso se devolver à sua humanidade, sendo que, Pinocchio queria ser um menino de verdade, ou seja, verdadeiramente humano, tal como em "Blade Runner", o resgate da nossa humanidade, além das nossas memórias, a nossa própria natureza confunde-se com a nossa origem, o nosso pai, ou o nosso útero. De onde viemos, para onde vamos, como disse Aristóteles, num filme que não alcança tudo a que se propôs, mas que ainda assim consegue se distinguir da mediania circundante. Afinal, este "monstro" só tinha mesmo medo da solidão.
A maré negra da nossa alma
Vingança não é justiça
Sobre o terrível caleidoscópio da vingança e do ódio, neste jogo somos Atsu, uma mulher com um passado tenebroso; Atsu vive assombrada e consumida por um desejo incontrolável de vingança, depois do líder de um bando de malfeitores, os 6 de Yotei, lhe terem morto toda a sua família. A primeira parte do jogo nada mais é do que uma jornada de morte e violência, em que nós, Atsu, eliminamos um por um básicamente toda a gente que se atravessa no nosso caminho; mas o jogo convida-nos a uma reflexão mais profunda, e Atsu várias vezes é confrontada com a sua prisão interior - vingança não é justiça - e um vazio lhe vai assolando a alma, Atsu lentamente perde a sua humanidade e torna-se naquilo que mais abominava: uma assassina fria e cruel. Impossível não perceber a ramificação intencional que a jornada espiritual de Atsu tem com o conflito na Palestina, pois que, também ela sacrifica inocentes, até amigos e família, para saciar a sua sede de vingança, num jogo inteligente que vai construindo camadas de percepção e interpretação complexas e surpreendentes, forçando o jogador a um julgamento constante como terceira pessoa. Vingança não é justiça e o ódio é o deserto árido de onde nada pode nascer senão morte e sofrimento. Para jogar sem desesperar.
Os anos da escravidão
A dimensão da falência moral das ditas sociedades das democracias livres representa de tal forma um retrocesso civilizacional que não há de facto margem para outro desfecho que não seja o confronto com a nossa própria imagem no espelho embaciado por estes anos tenebrosos de genocídio, barbárie e apocalipse. Gaza é um filho monstruoso do capitalismo, das sociedades liberais do ocidente e da nossa incapacidade de sermos verdadeiramente livres, mas antes escravos obedientes de uma ordem cínica e amoral que se auto-intitula como defensora dos “nossos” valores. Gaza é a prova que não somos livres. Somos escravos.
O Cardápio das almas
Um filme feito por uma mulher sobretudo para mulheres? Se calhar podemos falar assim porque nesta história os homens não existem, tratam-se de adereços cómicos ao enredo principal que fala da dependência feminina em relação ao seu corpo, melhor dizendo, e como insistentemente nos quer deixar claro a autora francesa: a dependência quase narcótica que as mulheres têm do quanto são desejadas; é isso que “acaba” aos 50, dito pela boca de Harvey, a repulsiva personagem de Dennis Quaid, a pergunta deixada em suspenso e que Coralie Farjeat quer que seja a audiência feminina a responder , e “O que acaba aos 50” é o mote para a história verdadeiramente horrorizante que de seguida se irá desenrolar, colando várias referências descaradamente óbvias sobretudo de Cronenberg mas também Kubrick, sem nunca deixar de nos induzir um desconforto constante já que, apesar de ser “lógico” o que a personagem de Demi Moore vai fazendo, cá dentro sentimos que aquilo é errado, antinatural e que vai acabar mal. Enfrentar o tempo, tentar ser jovem e bela novamente, torna-se aqui um anátema perverso: a busca pela juventude exige um preço alto, revelando o egoísmo e a superficialidade da jovem protagonista, objeto do desejo masculino (um ponto que a diretora sublinha — o desejo dos homens), enquanto essa busca literalmente consome a vida de seu alter ego mais velho. Esse é o castigo para quem tenta subverter as regras naturais do tempo e, por isso, a regra fundamental do uso da Substância: Elisabeth e Sue são a MESMA pessoa, compartilhando assim o mesmo destino.
Filmado como um videoclipe (com diálogos reduzidos ao mínimo), “Substance” usa uma direção de fotografia que privilegia grandes angulares, superfícies frias e brutalistas, cores plásticas em tons primários, tudo desprovido de afeto ou emoção. O filme é acima de tudo um documento visual que explora o universo visceral e transgressor de David Cronenberg — o corpo, a carne, a penetração, a destruição —, ao mesmo tempo que expõe a absurda dependência das mulheres de hoje pela aparência física, especialmente na era das redes sociais, onde são exibidas como num cardápio, e as implicações sociais dessa exposição. Pelo caráter quase simbólico, pelo arrojo visual, pela ambição e pelo descaramento, este é um dos filmes centrais da última década.
O Sonhador Acordou
A voz do mundo exterior que um dia nos levará ao paraíso, a metáfora perfeita para a nossa ânsia de liberdade e conexão com as nossas raízes, é encarnada nesta história por essa imensa figura, o avatar perfeito do líder inspirador, Paul Muad’ib, que paradoxalmente é tão só uma criação humana, uma história, e ele, sendo nada mais do que um homem usa a arma na sua mão: o desejo de liberdade e justiça de um povo para o seu propósito pessoal de vingança. Atormentado que está pelo seu destino, Muad’ib bebe a água da vida que lhe abre o olho interior, que o faz ver por fim a sua própria tragédia e o Apocalipse que se aproxima, que sente impossível de evitar, essa força imensa, ardente e poderosa que é a vontade de todo um povo ou nação. Paul olha nos olhos do Barão antes de lhe espetar a faca no pescoço e completar e seu arco, sabendo no entanto que o que começou já ninguém poderá alguma vez parar; é essa a parábola tremenda da obra de Herbert, e no seu pessimismo inerente, nos revemos, nós, humanos, nas nossas falhas, mesmo que movidos pelo mais nobre dos propósitos, a nossa humanidade, o ódio, a vingança, o medo, são a porta para as mais sórdidas atrocidades, para o totalitarismo, para a intolerância, para a morte.
“Dune” fala sobre esses homens, esses humanos, que um dia nos prometeram o paraíso, de Jesus Cristo a Spartacus, a obra final sobre a imensa abóbada de heróis corporizada na figura mítica de Muad’ib é um documento profundamente humano que apela à nossa compaixão por nós mesmos e pelo nosso desejo de liberdade, de justiça e de progresso, a base das sociedades modernas, é por outro lado uma fábula cautelar sobre as figuras messiânicas, sobre a embriaguez das religiões, e de não olhar a vida e o mundo como ele é, mas antes como num sonho acordado. Um filme central na cultura cinematográfica das últimas décadas, que figurará como um marco indelével na nossa cultura popular, até pela sua dimensão educativa e filosófica, pelas questões penetrantes que levanta e sobretudo pela mensagem comovente e sentida que o autor nos quer deixar. Absolutamente obrigatório, para ver com toda a família, e para depois ir até à beira mar, ou até casa, e falar sobre ele no que resta da noite. Cinema imenso, para ser vivido intensamente.
Fujam da escuridão
Demorou mais de uma década a ver a luz do dia, e segundo os seus criadores no início era um projecto completamente louco, e por isso o que joguei no último mês é algo de delirante, excessivo, estranho e ao qual é de facto impossível ficar indiferente. Acordei muitas vezes com aquelas olheiras depois de ter estado a jogar até às 4 e nem a Andreia Dias escapou a este mergulho no universo transloucado de Alan Wake 2, algo de verdadeiramente diferente e especial no mundo dos videojogos. Sam Lake sonhou esta ‘coisa’ inconcreta e diz ele q ainda não acredita que o conseguiu entregar ao fim de tanto tempo, de tantos problemas e desafios, e eu por mim lhe agradeço a lata de fazer uma piada de bom gosto, uma grande pedrada no charco como é este jogo que nos veste a pele de um escritor perdido entre o seu próprio mundo de pesadelo.
Um excesso ou delírio, depois de Cyberpunk 2077 e Baldur’s Gate 3, e de tudo q aconteceu entretanto, eis mais uma certeza de que os gamers como eu esperavam para carimbar o futuro na direção certa. Para jogar com a luz sempre acesa.
Quem criou o criador?
Há pouco mais de um ano foi lançado o telescópio James Webb, um dos mais avançados instrumentos alguma vez construídos pela espécie humana, representando talvez o pináculo do que a nossa presente tecnologia pode fazer, uma máquina maravilhosa com a capacidade de olhar as profundezas do cosmos de uma forma sobrehumana, já que não “vê” como os nossos olhos vêm, mas através do uso da faixa infravermelha do espectro, o que lhe permite penetrar ainda mais nos abismos do tempo e do espaço quase até ao momento da criação. Se houvesse um Deus de alguma forma semelhante ao Deus da Igreja católica seria praticamente impossível escapar de ser detectado pelo James Webb, por isso não há lá nenhum velhote montado numa nuvem, nem nada vagamente humanoide, mas sim algo muito mais estranho, fascinante e monstruoso do que algum escriba ou evangelista antigo poderia, ou teria sequer capacidade de imaginar. O universo é um lugar vasto, habitado por galáxias imensas, objectos de uma magnitude e violência inacreditáveis como quasares e buracos negros; e a própria história da sua criação e evolução está solidamente explicada até cerca de 300000 anos após o momento da criação; antes disso é um lugar de especulação e densos mistérios que de uma forma que ainda não se consegue perceber ou explicar terá uma relação enigmática com a gravidade, em particular com o papel que representa no mundo quântico ( a teoria da Gravidade Quântica ), e com as partículas, que são os blocos fundamentais da estrutura do nosso universo, de você e de mim próprio também. Num sentido profundo, é na união da física das grandes escalas, da gravidade e da teoria de relativade geral de Einstein com a física das pequenas escalas, do infinitamente pequeno, a mecânica Quântica, onde reside a chave para abrir a porta do deslumbramento que nos permitirá num futuro distante, literalmente, conhecer Deus, o verdadeiro e único Deus que alguma vez poderá ter existido. Quer conhecer um pouco do Criador? Atire uma pedra ao ar e veja como cai de novo na terra: a misteriosa força da gravidade é uma das suas faces. O que é realmente a Gravidade? De que forma se manifesta na escala quântica? Porque é tão mais fraca do que as outras três forças fundamentais? Será realmente deste universo ou uma manifestação de algo extradimensional vindo de outros planos de existência ou mesmo de outros universos ( como acreditam os físicos das cordas), e se tudo no universo, segundo a lei da entropia, tende para a desordem, porque só a força da gravidade parece ser não-entrópica, atraindo matéria e permitindo estruturação, estrelas e vida? E já agora, o que é realmente a matéria e energia negra? Um erro de cálculo ou algo mais? Num sentido irónico e belo, nós humanos somos matéria que ganhou consciência, o universo que evoluiu a um ponto em que agora se interroga a si próprio. De onde vim, quem sou e para onde vou, as perguntas ancestrais que nos levarão um dia à presença de Deus, o único em que acredito. E que realmente está em todo o lado.
Voltar
Hoje, um pouco por todo o mundo recordamos a memória do nascimento de Jesus Cristo, um dos mais extraordinários seres humanos da história; uma história que mais não passa de uma centelha num oceano de tempo, desde o seu início há cerca de 14 biliões de anos; esse homem era um rosto na multidão que um dia ousou sonhar um mundo melhor, de tolerância de respeito pela dádiva da vida, de fraternidade entre todos os seres humanos. A minha admiração por ele é por isso esmagadora: enfrentou uma montanha imensa de totalitarismo, despeito, ódio e violência, mas não há nada que corte a raiz ao pensamento, como disse o poeta, nada pode nunca matar uma ideia, um conceito ou um sonho, que de tão intenso se torna real e vence a fronteira do tempo, do espaço e do desconhecido. Apenas assim atingimos a imortalidade: memória. Um sorriso no fim de tarde, naquele dia à beira mar, aquele abraço forte que mudou tudo, ou aquele momento que ficou para sempre. Numa fotografia, ou numa memória, vencemos o tempo, porque quando olhamos esses fragmentos ou registos de luz do passado nos reconhecemos e revivemos, nos reencontramos. Meu deus, que magia, que assombro.
Hoje milhares de cientistas estão de coração apertado, trabalharam uma vida inteira para o que poderá ser um dos maiores feitos desta minha civilização jovem e sedenta de sonhos, de memórias. Com o James Webb Telescope, encerra-se um sonho antigo: olhar para trás no tempo, quase até ao começo de tudo, e através desse oceano desconhecido encontrar o nosso espelho, o nosso reencontro, porque como disse Sagan: “Somos uma forma de o Universo se conhecer a si próprio”.
Gostava de um dia poder olhar para trás e falar outra vez com o meu pai, com a minha avô, com amigos que perdi e talvez lhes poder dizer qualquer coisa, mas tudo isso está lá atrás e apenas os posso recordar numa fotografia, num fragmento de luz. Uma centelha no vasto oceano cósmico. Voltar. Voltar. Como gostaria de poder voltar.
Por isso neste dia mágico desejo a maior sorte do mundo a todos esses homens e mulheres que lutaram quase uma vida inteira para criar este instrumento maravilhoso e mágico, este telescópio que nos vai poder fazer olhar para trás, até a essa luz já tênue e difusa no príncipio do tempo, onde talvez nos reconheceremos.
Uma face entre a multidão. Que um dia ousou sonhar mais alto.